terça-feira, 18 de novembro de 2014

ALFABETO CARACTERÍSTICO DO SERTÃO VIRA TEMA DE DOCUMENTÁRIO

 A – BÊ – CÊ – DÊ – Ê – FÊ – GUÊ – AGÁ – I – JI – KÁ– LÊ – MÊ – NÊ – Ó – PÊ – QUÊ – RÊ – SI – TÊ – U –VÊ – DABLIO – XIS – IPISILONE – ZÊ
Esse é o abecedário do Sertão brasileiro. Num cenário árido, onde muitas vezes a força do trabalho no roçado vale mais do que o peso das palavras, esse alfabeto diferente interfere e contribui na construção cultural do povo sertanejo. Esse modo de falar virou tema de documentário. O “Sertão como se fala” aborda a fonética desse ABC e investiga suas raízes e seus desdobramentos na sociedade.
Durante 33 dias, uma equipe formada por nove pessoas da área do audiovisual – todos ligados ao cinema documental – passou por 17 cidades, percorrendo mais de 8 mil quilômetros. “Sertão como se fala” tem como objetivo retratar o que essa linguagem revela sobre o homem sertanejo e como ele se relaciona com o mundo através das palavras. O filme levanta questões relacionadas à herança cultural do sertão, suas expressões e reflexos na forma de socializar. Para isso, foram ouvidos educadores, professores, alunos, estudiosos e artistas que tiveram sua formação baseada nessa maneira de falar.

A ideia partiu de uma inquietação de Leandro Lopes, jornalista e documentarista. Leandro nasceu em Feira de Santana, na Bahia, e cresceu em Serrinha, a 60km de distância da cidade natal. Aprendeu o abecedário sertanejo e convive com ele até hoje, como uma memória afetiva e histórica. Atualmente, o jornalista mora em Belo Horizonte – lugar onde há um choque cultural quando Leandro ainda pronuncia palavras com a fonética sertaneja. “Fico surpreso em saber que a pouco mais de mil quilômetros, as pessoas falam de um jeito que ninguém ouviu por lá [em Belo Horizonte]“.
Os amigos de Leandro abraçaram a proposta do documentário e iniciaram a jornada pelo Sertão brasileiro. O grupo já passou por cidades como: Feira de Santana, Serrinha, Euclides da Cunha, Monte Santo, Canudos, Canindé de São Francisco, Palmeira dos Índios, Arcoverde, São José do Egito, Juazeiro do Norte, Oeiras e Petrolina. A viagem acabou no dia 10 de novembro e “já deixou nossos corações partidos”, comentou o idealizador.
Em cada cidade, a equipe se deparou com histórias de gente que acredita na força do trabalho, mas que reconhece a importância de saber ler e escrever: “é um filme de encontros. Temos encontrado pessoas muito interessantes que nos acrescentam com suas experiências. Gente pouco letrada, mas que desenvolveu seu próprio jeito de falar, que valoriza o modo de dizer de seu povo, mas que também já se envergonhou de falar ‘fê’ e não ‘efe'”.

Leandro afirmou se surpreender ao revisitar o Sertão – um lugar que, segundo ele, é cheio de gente que carrega no olhar a dureza de uma terra castigada pelas dificuldades históricas, mas que conseguiu desenvolver um jeito afetuoso de viver. “Encontramos um sertão muito diferente daquele que minhas lembranças traziam da infância. Encontramos um sertão com internet, com uma cultura forte e atuante, com sertanejos cheios de visões políticas estruturadas“, explica.
O documentário também busca resgatar as memórias do ABC do Sertão, que anda a se perder em meio ao processo de padronização da alfabetização. No Ceará, por exemplo, não se ensina mais a falar “fê”, “mê”, nê”. Na Bahia, isso ainda existe. Apesar de não se tratar especificamente de um sotaque e sim de um completo alfabeto, Lopes afirmou que as diferenças linguísticas deveriam, na verdade, unir o Brasil e não servir de motivo para um preconceito que insiste em esmagar o Nordeste. Para isso, é preciso reconhecer o valor do nordestino.
Sobre a Miss Brasil Melissa Gurgel, que sofreu discriminação por seu modo de falar, o documentarista declarou: “O sotaque cearense é lindo de morrer e tão bonito quanto o sotaque de vários outros estados do Brasil. A Melissa precisa cada vez mais falar, é preciso que exista microfones sempre abertos a ela e que sua voz ecoe cheio de sotaque pelo País. É preciso que o Brasil se ouça melhor!“.
O filme agora está em fase de edição e deverá ficar pronto em maio de 2015. “Sertão como se fala” vai rodar em circuitos nacionais e internacionais e a equipe pretende voltar em cada cidade participante para mostrar o documentário. Feito por produção independente, a equipe tenta levantar fundos para custear o filme por meio de financiamento coletivo através do site Catarse.



Tribuna do Ceará

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